Phoetycando...

Quem passar por esse blog vai encontrar palavras conhecidas, num grande esforço de que sejam poéticas. Gostaria que todos aqueles que apreciam qualquer forma de arte, se sentissem à vontade nesse blog como que acompanhando o desabrochar de uma flor, ou apenas a compaixão por quem tem a urgência da palavra.
Bons ventos poéticos e musicais cruzem os meus caminhos.

Cora Clarice de Barros

Minha foto
Rio de Janeiro, Brazil
"Sou como a haste fina que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta." Carta de amor - Oásis - Maria Bethânia

domingo, 29 de abril de 2012

Poema Sapeca

Quando vi a foto chorei.

Seu olhar traduzia as maiores dores que já tinha passado na vida.



Sapeca pequena já sofria

E meu passado voltou através do seu olhar.

Dormir virou uma agonia

Acordar um desespero

Cada ato de amor por ela fazia o dia brilhar

Cada notícia ruim escurecia todas as nuvens

Viver por Sapeca

Assim são meus dias agora

Hei de suportar o tempo necessário

Hei de vê-la feliz

Deus é justo nos seus desvios

E colocou esse meio olhar no meu mundo

Para que todos os sentidos fiquem alerta

Na hora de recomeçar Sapeca.

Inventário

Resolvi fazer um inventário da minha vida e descobri que nada possuo. Os bens materiais passaram e passam por mim, mas seguem para outros destinos mais necessários. Os bens afetivos...ah, esses não ficam comigo por muito tempo.Sou apenas uma espécie de atravessadora ou traficante de sentimentos. Tudo o que sinto e me arranha por dentro, acaba indo para outro rumo e eu fico a espera de nova entrega. Choro pelos que sofrem, compartilho agonias, enlouqueço pelo desconhecido e depois nada me resta senão o cansaço da empreitada. A alegria é passageira, como bem disse Guimarães Rosa referindo-se à felicidade como um descuido. Poucas vezes me sinto descuidada de alegria. Também para ela sou atravessadora e repasso para outros, muitos que nem sei quem são. Mas se nesse breve momento de alegria pudesse escrever muito, diria que é um êxtase, um sentimento tão forte que parece romper o peito e jorrar luminosidade no caminho.Passa rápido, é preciso aproveitar esse momento de descuido porque nunca sei quando ele vai voltar. Quisera poder acordar com a esperança de que em cada dia eu teria ao menos um momento de descuido. Mas o amanhã é um novo dia de entrega, não tenho a pretensão de poder saber que tipo de emoção estou traficando. Sei que me aguarda a prisão perpétua por tantos desvios. A morte é mais simples, vai-se para outro plano. Na prisão o tempo goteja lentamente e cada minuto me torna mais forte para a solitária missão de atravessar e traficar sentimentos.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A origem do nada

Encontrei entre meus rabiscos a origem da temática NADA, que postei aqui. Esse sentimento já passou, estou em outras esferas de emoções poéticas, mas acho interessante ler como tudo começou. "E ainda que o sol brilhe e o dia amanheça convidativo, a vontade de não ver é maior. Desassossego no olhar já embaçado pelo tempo. Em alguns momentos a visão é clara, límpida e convidativa, mas nem sempre é assim, muda como a lua a cada semana. A sensação de que o tempo passou além das minhas tortas contas, passa pela lua e localização do sol na minha casa. Vou mudando a mobília de posição, mas eu mesma não mudo. Rigidez interna no embate com o móvel de rodas, o colchão suspenso, as roupas largadas ao acaso. O tempo passa rígido quando fico com vontade de nada. Embora ache que o dia é tão longo que não vou suportar, quando me dou conta já se passaram muitos dias. A lua encolheu, o sol andou, minha memória falha. Descobri o nome: vontade de nada, que é uma estagnação móvel porém repetitiva. Com o tempo os atos e pensamentos repetitivos se tornam um hábito. Não é vontade de morrer, é vontade de nada. O que me salva é a natureza atropelando os pensamentos.Os canários na flor artificial para um beija-flor...canário gosta de adocicar seu bico? Nuvens que vêm e vão. Saio de manhã com um céu azul turquesa e volto com uma infinidade de desenhos em preto e branco. São as nuvens brincando com os raios solares que vão para outra direção. A vontade de nada é guiada pelos sentidos e não consigo encontrar o espaço do sonho.Quando essa vontade vai embora os sonhos voltam e tudo muda como se nada houvesse acontecido anteriormente. Será que vontade de nada é preguiça? Acho que não. pelo menos comigo, porque qualquer estímulo me desperta e vem um sopro de vida, talvez seja um sopro divino que vem me resgatar da inércia.Mas não acontece sempre. Que bobagem ficar falando sobre a importância da mudança se eu mesma não consigo praticá-la. Vontade de nada é muito perto da vontade de mudar, quase um sussurro. Diacho, mas como se faz para mudar isso?"

sábado, 21 de abril de 2012

Sobre fugir


Sempre gostei de fugir. Primeiro de casa, dos castigos da infância, das broncas e travessuras do colégio. Fugir era uma aventura diária que eu praticava com prazer. Não sabia que viciava. Aos poucos fui me dando conta de que fugir me poupava de muita coisa, principalmente dos sentimentos que eu não queria enfrentar. E sem saber muito bem o que estava fazendo, fui me esquivando de muitas coisas nessa vida. Antes era por medo de sofrer, mas depois virou um vício, uma dependência, como usar alguma droga talvez. Não consigo viver sem fugir. É muito mais fácil do que se imagina.

Sobre o vazio

Difícil descrever o que é o vazio. Surge do inesperado, de um dia de expectativas frustradas, do silêncio que era tão agradável e tornou-se insuportável. Surge da sensação de que necessitamos abrir mão das pessoas que amamos para outras que acabaram de surgir e levam o ser amado assim... como um pequeno vendaval que carrega todos os sonhos.Vazio é ficar sem sonhos. Não ter planos nem para a hora seguinte, quanto mais para o dia, a semana, o mês, a vida.Vazio de sonhos é vazio de vida. É uma impaciência com o tempo que se torna descaradamente lenta e os ponteiros do relógio parecem estagnados. Raiva de ponteiros, calendários, notícias. Tudo tão vazio. Pior é olhar para dentro de si mesmo e constatar que nem eco se tem mais, de tão vazio que tudo ficou.

Sobre a Solidão

O triste da solidão é saber que a gente anuncia tanto que está bem, que a liberdade é a melhor coisa do mundo, que tudo que nos basta está ao nosso alcance e no dia em que nos damos conta de que nada disso é verdade, é tarde demais. Todos vão lembrar da nossa liberdade, da suposta alegria diária e eterna, sentirão saudades, terão inúmeras lembranças, mas ninguém virá nos procurar. Então antes de gritar para todo mundo ouvir que sua solidão é maravilhosa, pense nesta decorrência inevitável e trate de arcar com as consequências dela. Solidão é isso mesmo. Silêncio, vazio, vontade de não fazer nada, de dormir e não acordar, de beber veneno, de enlouquecer por saber que nem o direito de morrer se tem mais. Pense bem antes de anunciar que é uma pessoa solitária e feliz.

Sobre a Poesia

Hoje acordei poética como se fosse capacitada para tal. E a emoção existe em todo mundo, mas nem todos conseguem expressar, ou não se importam e resolvem levar a vida de outra forma. Eu não vivo sem poesia, a forma mais linda de se falar. Eu não vivo sem música, a forma mais linda de se emocionar. Eu não vivo sem teatro, a forma mais linda de me enxergar. Ando muito Manoel de Barros...choro com suas poesias e frases. Talvez porque na minha maturidade cronológica e vivida intensamente, tenha encontrado na natureza todo o deslumbramento que busquei ao longo da minha vida. E Manoel é natureza pura, emoção vital, sentimento divino. Queria poder escrever bonito como todos os poetas. Talvez meu coração doesse menos e minhas lágrimas fossem delicadas e bem vindas. Mas escolhi outros caminhos e agora com essa possibilidade de comunicação virtual já consigo escrever alguma coisa, ainda que só eu mesma leia. Não importa, sou poetisa para mim mesma e talvez para alguém desavisado que esbarre nas minhas palavras. Minha primeira vontade de escrever surgiu quando li Adélia Prado pela primeira vez e descobri que ela havia sido reconhecida como a grande poetisa que é aos 42 anos. Pensei comigo mesma: ainda tenho tempo. Mas o tempo passou e agora estou aqui ainda admirando tantos artistas e nada escrevi. Será que tenho tempo? Talvez, mas o talento da escrita é cultivado aos poucos e cuidadosamente. Posso não ser escritora, nem emocionar pessoas como nos livros de poesia, mas acho que não faz mal nenhum escrever o que sinto. É como uma necessidade vital de expressar o que transborda do meu peito já tão cansado, do meu coração já tão doído e que mesmo assim insiste em se expor. Talvez a solidão tenha me ensinado muito sobre mim mesma e sobre a vida. Por isso hoje sou árvore, passarinho, flor, terra molhada, nuvem, mar, cachoeira, chão. Minhas companhias são permanentes e eventualmente ficam zangadas, como todo mundo por algum motivo, mas sempre estão por perto e me acariciam com a sua beleza. Hoje acordei nuvem e nem sei se vou chover. Mas é muito bom passear por aí olhando para baixo e cumprimentando minhas companhias diárias.

Phoetycando ao Vento

Depois de várias tentativas infrutíferas, começo um novo blog. O nome diz exatamente as minhas maiores admirações, ou melhor, o alimento da minha alma que é a música e a poesia. Como sou uma pessoa comum, sem capacitações artísticas definidas, não sei quem vai se interessar em ler, seguir ou comentar o que escrevo. Mas vou escrever assim mesmo. Minha essência clama pelo exorcismo dos meus sentimentos e vou obedecê-la delicadamente. 
Todos somos essencialmente poéticos, mas poucos se aventuram nessa estrada difícil e cheia de atropelos. A crítica é um dos meus maiores desafios. Parece uma sombra que sinto gelar na espinha quando me exponho. Já vivi o suficiente para me importar com esses temores mundanos que travam a criação, então aqui estou para postar o que me faz flutuar, chorar, pensar tão longamente que o tempo se perde no relógio.
Porque começar de novo? Decidi depois de ouvir uma música de Paulo Cesar Pinheiro chamada Carta de Amor, em que Maria Bethânia finalmente coloca suas palavras entrecortadas na linda música. Ela que sempre interpretou tão bem Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e tantos inesgotáveis talentos, agora também se expõe. Cansou de escrever e queimar o que escrevia e libertou o seu verbo para o mundo. Quem sou eu para me comparar a essa grande artista...apenas achei uma boa sugestão. Como sou anônima, fica muito mais fácil.
Versar e cantar são minhas únicas pretensões. Sem necessidade de elogios e passível de críticas. A liberdade me salva e o vento leva minhas palavras.